A gestação, nas narrativas das mães e famílias entrevistadas no módulo de luto perinatal, aparece como um período profundamente marcado pela construção de sonhos, expectativas e projetos de vida em torno da chegada do bebê. Antes de qualquer intercorrência clínica, a gravidez costuma ser vivida como uma experiência de transformação emocional, familiar e identitária. Os relatos revelam que a descoberta da gestação inaugura novas formas de imaginar o futuro, reorganizar a rotina e fortalecer vínculos afetivos com o bebê ainda durante a gravidez.
Em muitas histórias, a maternidade e a paternidade são descritas como projetos intensamente desejados e aguardados. A confirmação da gravidez mobiliza preparativos materiais e emocionais, envolvendo escolha de nomes, compra de roupas, preparação do quarto, realização de exames e compartilhamento da notícia com familiares. A experiência da gravidez vai sendo construída gradualmente através das consultas, ultrassonografias, movimentos do bebê e planos criados para a vida após o nascimento.
Laís descreve que a descoberta da gravidez gemelar foi vivida como um momento de enorme felicidade para o casal. O sonho do marido era ter uma filha menina, e a notícia de que esperavam duas meninas intensificou ainda mais a emoção e os projetos construídos em torno da maternidade e da paternidade:
“A gente descobriu na morfológica que eram duas meninas. E assim… foi uma felicidade muito grande porque era o sonho do meu marido ter menina. A médica explicava desde o começo que era uma gravidez rara, que precisava acompanhar muito de perto, mas mesmo assim a gente ficou muito feliz. Eu acreditava muito que ia dar certo. A gente já tinha começado a preparar tudo delas. O quartinho, as roupinhas, os nomes… elas já faziam parte da nossa vida, da nossa rotina, das nossas conversas.”
As narrativas mostram que, mesmo quando a gravidez era considerada de risco desde o início, muitas famílias buscavam sustentar esperança e construir experiências positivas em torno da gestação. O vínculo com o bebê era fortalecido através dos preparativos cotidianos, das expectativas familiares e da própria vivência corporal da gravidez.
Flávia relata que, mesmo após receber informações sobre as malformações da filha e sobre a gravidade da gestação, continuava investindo emocionalmente na relação com a bebê e imaginando a possibilidade de levá-la para casa:
“Mesmo sabendo de tudo que podia acontecer, eu conversava muito com ela. Fazia carinho na barriga, imaginava ela comigo, imaginava como ela seria quando nascesse. Eu continuava comprando as coisinhas dela, sonhando com ela em casa. Então, apesar do medo, eu tentava viver minha gestação e me conectar com ela o máximo que eu podia, porque ela já era minha filha desde ali.”
Os relatos também evidenciam como a gravidez produz transformações importantes na percepção que mulheres e homens possuem sobre si mesmos. A experiência da parentalidade começa a ser construída ainda durante a gestação, antes mesmo do nascimento do bebê. Muitos participantes descrevem sentimentos intensos de pertencimento, responsabilidade e reorganização emocional a partir da descoberta da gravidez.
Lethícia e Phelipe descrevem que a chegada de Maria Fernanda reorganizou completamente os projetos do casal. A gravidez passou a ocupar lugar central na vida cotidiana e nos planos futuros da família:
“A gente já tinha preparado tudo para ela. O quarto dela já estava praticamente pronto, as roupinhas organizadas, enxoval comprado. Tudo que a gente fazia era pensando nela. Ela já fazia parte da nossa rotina, da nossa conversa, dos nossos planos. A gente imaginava como seria trazer ela pra casa, como seria a nossa vida com ela.”
Em vários relatos, a gestação também aparece como um período de intensa construção simbólica da maternidade e da paternidade. As mães descrevem lembranças marcantes relacionadas às ultrassonografias, ao momento de ouvir o coração do bebê, sentir os movimentos na barriga e compartilhar a gravidez com pessoas próximas. Esses momentos são frequentemente lembrados posteriormente como experiências preciosas dentro da trajetória de vida com o bebê.
Ao mesmo tempo, algumas narrativas revelam que a gravidez passou gradualmente a ser atravessada por sentimentos ambivalentes, especialmente diante do surgimento de alterações clínicas ou sinais de risco. Ainda assim, mesmo quando medo, ansiedade e insegurança começavam a aparecer, muitas mães relatam que o vínculo afetivo com o bebê se fortalecia ainda mais.
Flávia descreve que, após descobrir as alterações importantes nos exames da filha, passou a viver a gestação com tensão constante, sem abandonar, entretanto, os sonhos e expectativas construídos em torno da maternidade:
“Os médicos falavam que ela podia morrer a qualquer momento, então eu vivia muito assustada. Toda semana eu ia fazer exame já pensando no pior. Mas, ao mesmo tempo, eu continuava sonhando com ela viva. Eu imaginava ela no meu colo, imaginava ela em casa comigo. Era como se eu tentasse aproveitar cada momento da gravidez porque eu não sabia quanto tempo ainda teria ela comigo.”
Em algumas entrevistas, os participantes relatam que a gravidez também fortaleceu relações familiares e afetivas. A espera pelo bebê mobilizava avós, tios e pessoas próximas, que acompanhavam consultas, ajudavam nos preparativos e compartilhavam expectativas sobre o nascimento da criança.
Laís relembra que toda a família se envolveu intensamente na espera pelas gêmeas, acompanhando o desenvolvimento da gravidez e participando dos preparativos para a chegada das bebês:
“Todo mundo acompanhava muito. Minha mãe, minha família, a família do meu marido… todo mundo já esperava elas. Todo mundo perguntava dos exames, dos nomes, das roupinhas. Elas já eram muito amadas antes mesmo de nascer.”
As entrevistas reunidas neste módulo evidenciam que a experiência da gestação permanece profundamente significativa para as mães e famílias mesmo após a perda do bebê. As lembranças desse período — os movimentos na barriga, os exames, os preparativos, as conversas dirigidas ao bebê e os projetos construídos para o futuro — tornam-se elementos centrais na memória familiar e no processo posterior de elaboração do luto.
Assim, os relatos mostram que, no contexto da perda perinatal, a gestação não pode ser compreendida apenas como um período biológico anterior à morte do bebê. Trata-se de uma experiência relacional, afetiva e simbólica profundamente marcante, na qual vínculos familiares e identidades parentais já estavam intensamente construídos muito antes do nascimento.
