As narrativas reunidas nesta categoria mostram que o luto perinatal é uma experiência contínua, não linear e profundamente pessoal. As entrevistas revelam tanto a vivência subjetiva da dor — suas oscilações, sua permanência ao longo do tempo — quanto os recursos e apoios que ajudaram as mães e famílias a atravessar esse processo.
12.1 Aspectos emocionais e sociais do luto (percepção da mãe)
As entrevistas evidenciam que a dor do luto perinatal não segue uma trajetória previsível de superação. Muitas mães descrevem uma dor que permanece presente, com momentos de maior e menor intensidade, mesmo muito tempo depois da perda.
Elaine relata que sua dor não desapareceu com o tempo, e que chegou a chorar de forma intensa apenas quando a filha completaria um ano de falecida:
"Não tenho nem como definir essa dor, ela é uma dor que, enquanto eu viver, não acaba. Tenho uns altos e baixos. [...] Eu não chorei no ato. Eu vim chorar a morte dela quando fez um ano de morta."
Brenda descreve a sensação de estranhamento profundo diante de uma vida que parecia igual por fora, mas completamente diferente por dentro:
"Tudo em você parece diferente, mas está tudo igual. [...] Eu estou tendo que aprender a andar, é como aprender a andar novamente, respirar de novo, aprender a ver cor de novo — tudo está sendo novo, é como se eu tivesse nascido de novo, só que eu já vivi."
Em uma das entrevistas realizadas com o casal, tanto a mãe quanto o pai puderam descrever, cada um à sua maneira, como vivenciaram esse processo — revelando que o luto pode ter ritmos diferentes dentro da mesma relação, sem que isso signifique menos sofrimento.
Phelipe relata que reconheceu, junto com a entrevistadora, que ele e Lethícia atravessaram o luto em tempos diferentes:
"O processo para cada pessoa é de cada um. [...] O processo para mim foi mais rápido, e para ela foi mais demorado. A aceitação dela demorou mais do que a minha. Mas isso vai de cada um, de como você lida com isso."
Laís relata que o luto transformou profundamente sua própria forma de ser, contrastando com quem ela era antes da perda:
"Eu sempre fui uma pessoa muito feliz, muito animada, muito alto astral. Quando aconteceu o luto… ninguém esperava uma Laís desanimada, mas gente, teve que acontecer: eu era uma Laís muito diferente."
Neryvania relata que, mesmo anos depois e já gestante novamente, sentia que as pessoas ao redor esperavam que ela deixasse de falar do filho que perdeu — e reafirma que uma nova gestação não substitui a perda:
"A gente continua sendo a punhalada, porque passar não passa… porque não substitui. Você tem medo de acontecer de novo, e as pessoas continuam esperando que você siga em frente."
12.2 Aspectos emocionais e sociais do luto (percepção do pai)
Embora apenas quatro pais tenham sido entrevistados — sempre acompanhando suas respectivas companheiras, e não em entrevistas próprias e independentes —, suas falas revelam uma dimensão do luto perinatal que merece espaço específico: a forma como os pais vivenciam, à sua maneira, a mesma perda.
Phelipe descreve o momento em que, ao finalmente ver a filha sem vida, sentiu ruir de uma só vez a expectativa que havia construído para a paternidade:
"Eu acho que minha ficha caiu mais quando eu a vi. Porque até então eu só ficava imaginando: não, não é possível, isso não aconteceu. E quando eu de fato a vi, lá na geladeira que eles falam, né? Aí eu desabei. Eu não aguentei. Eu chorei horrores. Foi aí que tudo… aquele meu sonho de ser pai de uma menina caiu, desmoronou, e eu fiquei acabado."
Thayanan relata ter vivido o momento do parto como uma cena de paralisia emocional, e descreve, mais adiante, o esforço consciente de não chorar diante da companheira, por medo de que isso a fragilizasse ainda mais:
"Eu não conseguia nem chorar na hora, era uma sensação muito ruim. Foi uma cena, um filme de terror, no meu ponto de vista. [...] Eu me senti mal, porque sabia que não era o melhor. Eu não ia chorar — e ia ficar com a consciência pesada por não estar chorando."
Sandro descreve a intensidade do vínculo construído nos quatro dias de vida da filha, e reflete que o próprio luto foi, para ele, uma descoberta:
"Foi uma avalanche de emoção, porque eu não imaginava que teria ali uma identificação, um amor, uma emoção tão forte quanto eu vivi. [...] A perda gestacional, para mim, foi uma surpresa muito grande — porque eu só considerava luto quando havia vida, contato, e depois a morte."
Jailson relata que a dor permanece viva mesmo tempo depois, e descreve o cuidado que teve ao contar a notícia para a filha mais nova da família:
"Está sendo difícil até hoje. [...] Vendo foto dela, é uma coisa que a gente nunca esqueceu, na verdade acho que nunca vai esquecer. É uma coisa muito difícil."
As falas reunidas nesta categoria evidenciam que, embora a experiência da gestação, do parto e da maternidade recaia de forma mais direta sobre o corpo e a vida da mãe, os pais também vivenciam sua própria versão do luto — muitas vezes silenciada, contida ou colocada em segundo plano diante do sofrimento mais visível da companheira.
12.3 Busca por ajuda durante o luto (com ajuda do companheiro, amigos e familiares)
As entrevistas mostram que o apoio psicológico, os grupos de mães enlutadas, a rede familiar e a espiritualidade apareceram, de formas muito diferentes, como recursos que ajudaram as famílias a atravessar o luto.
Amanda relata que o acompanhamento psicológico iniciado ainda durante a gestação foi determinante para que ela não desenvolvesse um quadro mais grave após a perda:
"Se eu não tivesse passado pelo psicólogo, tido sido acompanhada desde o início, eu estaria até hoje em uma depressão, porque é uma dor muito forte."
Laís descreve um encontro particularmente marcante com uma terapeuta especializada em luto que também havia perdido uma filha, e que a acolheu de forma profunda:
"Ela tinha se tornado uma terapeuta especializada em luto. [...] Ela me escutou super atenciosa, deixou eu falar tudo, chorei, chorei, e ela falou: 'Laís, tudo que você for fazer, quando for tomar banho, quando for comer…'"
Neryvania relata que encontrar um grupo de outras mães enlutadas foi um dos apoios mais importantes de todo o processo, um vínculo que se manteve vivo ao longo dos anos:
"Eu digo que foi uma sorte ter sido acompanhada por esse grupo, ter tido a amizade de outras mães — porque até hoje as mães se falam no nosso grupo."
Lethícia relata que, no início, encontrava apoio principalmente em profissionais de saúde mental, e que a fé também teve papel importante em sua reconstrução:
"A única pessoa que eu conseguia mesmo conversar era a minha psicóloga e a psiquiatra. [...] Eu tenho a minha religião, sou evangélica. Então, depois de tudo, eu consegui voltar para o caminho, seguir, botar a cabeça no lugar."
Thayanan relata que, nos dias seguintes à perda, a família se organizou para dar suporte prático ao casal diante das burocracias e decisões que precisavam ser tomadas:
"A minha mãe veio para cá no dia seguinte. A gente tinha o apoio da irmã dela e do nosso cunhado, marido dela — e aí o que era preciso fazer, a gente fazia."
As entrevistas reunidas nesta categoria evidenciam que o luto perinatal não é um processo linear nem igual entre os membros de uma mesma família: cada pessoa vive suas próprias oscilações emocionais, em seu próprio tempo. Ao mesmo tempo, os relatos mostram que apoio psicológico, grupos de apoio, rede familiar e espiritualidade — muitas vezes combinados — são recursos centrais para que as famílias consigam atravessar essa experiência.
Ao reunir essas narrativas, busca-se valorizar tanto a complexidade emocional do luto perinatal quanto a diversidade de caminhos e apoios que ajudam mães e famílias a integrar essa perda à própria vida, sem que isso signifique esquecer ou superar definitivamente a dor.
