A Relação Com a Equipe

As narrativas reunidas nesta categoria mostram que a relação estabelecida entre mães, famílias e profissionais de saúde ocupa um lugar central na experiência da perda perinatal. O modo como médicos, enfermeiros, psicólogos, residentes, técnicos e demais profissionais se comunicam, acolhem e acompanham as famílias durante a gestação, o parto, a internação e a morte do bebê produz impactos profundos na forma como essas experiências são vividas e posteriormente lembradas.

As entrevistas evidenciam que, em contextos marcados por sofrimento extremo e intensa vulnerabilidade emocional, pequenos gestos de cuidado, escuta, empatia e sensibilidade são frequentemente percebidos pelas mães como experiências profundamente significativas. Muitas participantes descrevem que o acolhimento recebido por determinados profissionais ajudou a diminuir a sensação de solidão, desamparo e desorganização emocional diante da perda.

Laís relata que a equipe responsável pelo acompanhamento de sua gestação e pela cesariana após a morte das filhas foi extremamente cuidadosa e humana durante todo o processo:

“Eu lembro que antes da cirurgia os profissionais iam entrando e se apresentando um por um. Eles seguravam minha mão, explicavam tudo, perguntavam como eu estava me sentindo. Mesmo sendo o pior momento da minha vida, eu me senti acolhida ali. Eles não trataram minhas filhas como só mais um caso.”

Em muitos relatos, os profissionais que demonstravam emoção diante da morte do bebê eram lembrados pelas mães como figuras importantes dentro da experiência da perda. O reconhecimento da dor da família e a capacidade de se afetar emocionalmente pela situação apareciam como sinais de humanidade e legitimidade do sofrimento vivido.

Flávia descreve que o médico responsável pelo acompanhamento da filha chorou junto com ela no momento da confirmação da morte fetal:

“Quando ele falou que o coração dela tinha parado, ele também se emocionou. Eu lembro dele chorando comigo. Aquilo me marcou muito porque eu senti que ele realmente entendia minha dor, que minha filha importava para ele também.”

As narrativas mostram também que o acolhimento oferecido pela equipe frequentemente ajudava as mães a se sentirem reconhecidas em sua maternidade, mesmo após a morte do bebê. Perguntas sobre o nome da criança, incentivo para segurar o bebê no colo, criação de memórias e validação da existência do filho aparecem como experiências importantes no cuidado humanizado.

Lethícia relata que os profissionais da UTI Neonatal e da maternidade acolheram ela e o marido durante toda a trajetória de internação e despedida de Maria Fernanda:

“A equipe perguntava o nome dela, falava dela pelo nome, perguntava se a gente queria ficar mais tempo com ela, se queria tirar fotos. Eles fizeram a gente sentir que ela era importante, que ela existiu, que ela era nossa filha.”

As entrevistas revelam ainda que algumas participantes vivenciaram experiências extremamente dolorosas relacionadas à falta de sensibilidade ou preparo de determinados profissionais diante da perda perinatal. Falas bruscas, comunicações frias, negligência emocional ou ausência de escuta aparecem em alguns relatos como experiências que intensificaram o sofrimento.

Lethícia descreve que a primeira médica responsável pelo acompanhamento da gravidez comunicou as alterações nos exames de forma extremamente agressiva:

“Ela falou de um jeito muito frio, muito duro. Parecia que estava falando de qualquer coisa, não da minha filha. Eu saí daquela consulta completamente destruída. Até hoje eu lembro da forma como ela falou comigo.”

Em vários relatos, as mães descrevem que a postura acolhedora da equipe ajudava a tornar suportáveis momentos considerados insuportáveis emocionalmente. O simples fato de os profissionais permanecerem presentes, escutarem o sofrimento da família ou demonstrarem disponibilidade emocional era percebido como parte fundamental do cuidado.

Amanda relata que, durante a internação, se sentiu acolhida por profissionais que conseguiam reconhecer sua dor sem minimizar a gravidade da situação:

“Tinha profissionais que só de olhar para mim eu sentia que entendiam meu sofrimento. Às vezes era uma conversa, um toque, uma explicação mais calma… e aquilo fazia muita diferença porque eu me sentia completamente perdida.”

As entrevistas também mostram que o vínculo construído com determinados profissionais frequentemente permanece na memória das mães muito tempo após a perda. Algumas participantes relatam profunda gratidão pelas equipes que acompanharam sua gestação, o parto ou a internação do bebê, reconhecendo nesses profissionais figuras importantes dentro da própria elaboração do luto.

Laís descreve que até hoje guarda lembranças muito afetivas da equipe que a acompanhou durante a perda das filhas:

“Mesmo sendo uma experiência muito dolorosa, eu lembro da equipe com muito carinho. Eles me ajudaram a atravessar o pior momento da minha vida de uma forma muito humana.”

Em muitos relatos, a relação com a equipe também aparece associada à necessidade de reconhecimento da singularidade daquela perda. As mães descrevem sofrimento quando percebiam abordagens automáticas ou padronizadas e valorizavam profissionais capazes de enxergar o bebê como filho e a família como pessoas vivendo uma experiência única de sofrimento.

Flávia relata que se sentia profundamente tocada quando os profissionais falavam da filha pelo nome:

“Quando eles falavam o nome dela parecia que reconheciam que ela existia, que ela era minha filha. Isso fazia muita diferença para mim.”

As narrativas reunidas nesta categoria evidenciam que a relação estabelecida com os profissionais de saúde produz impactos duradouros na experiência da perda perinatal. O acolhimento, a comunicação cuidadosa, a empatia e o reconhecimento da maternidade e da existência do bebê aparecem como elementos centrais do cuidado humanizado em situações de luto perinatal.

Ao reunir essas narrativas, busca-se valorizar a importância da relação entre famílias e equipes de saúde no contexto da perda perinatal, reconhecendo que a forma como mães e pais são tratados durante esses momentos permanece profundamente marcada em suas memórias e na elaboração posterior do luto.